O senso do provável
O senso do provável
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Se alguém nos exigisse uma prova rigorosa de que vamos morrer, de que a Terra existe há mais de um século, de que a nossa mãe nos ama ou de que um velho amigo é digno de confiança, ficaríamos em apuros. Nenhuma dessas certezas — e são as mais firmes que temos — resiste a uma demonstração no estilo da geometria. E, no entanto, não são palpites: sabemos essas coisas com uma segurança total, capaz de sustentar a vida inteira. Como? Foi o cardeal John Henry Newman quem melhor descreveu esse mistério, numa das obras mais lúcidas já escritas sobre a mente humana, a Gramática do Assentimento. A resposta dele ilumina tudo o que esta seção vem dizendo.
O cabo e os fios
A maior parte do que conhecemos com certeza, mostrou Newman, não repousa sobre uma única prova decisiva, mas sobre a convergência de muitos indícios — cada um deles, sozinho, fraco e insuficiente, mas todos juntos irresistíveis. A imagem que ele usa é a de um cabo: um só fio não sustentaria nada, mas muitos fios finos torcidos juntos formam um cabo que aguenta um navio. Assim é a nossa certeza de que um amigo é leal: não há uma prova única, mas mil gestos pequenos, olhares, fidelidades ao longo dos anos, que sozinhos nada provariam e que juntos não deixam dúvida. A isto Newman chamou raciocínio por probabilidades convergentes — e é assim, e não por silogismos, que decidimos quase tudo o que realmente importa.
O senso ilativo
O que reúne esses fios num cabo, o que pesa os indícios e chega à conclusão, não é uma regra automática que qualquer máquina pudesse seguir. É uma faculdade viva, pessoal, que Newman chamou de senso ilativo — o poder que a mente amadurecida tem de julgar bem em matérias concretas, onde não cabe demonstração estrita. Ele se parece com o discernimento do médico experiente, que “vê” o diagnóstico, ou do juiz prudente, que pesa o caso. Não é infalível, e não se transmite por fórmula: forma-se com a experiência, com a retidão do caráter, com a honestidade de quem busca a verdade e não a própria conveniência. Duas pessoas diante dos mesmos indícios podem julgar de modos opostos — e a diferença não está na lógica, que ambas dominam, mas na qualidade do senso ilativo de cada uma, que é a qualidade da pessoa inteira.
Por que isto justifica a fé
Newman não desenvolveu tudo isto por curiosidade teórica. Ele buscava mostrar que a fé é razoável — que aderir a Deus não é um salto no escuro nem uma prova de laboratório, mas exatamente esse tipo de certeza que nasce de muitos indícios convergentes, acolhidos por um coração reto. Distinguia o assentimento nocional, meramente intelectual, do assentimento real, que engaja a pessoa toda e move a vida. Ninguém morre por um teorema; morre-se por uma certeza real. A fé pertence a essa segunda ordem de certeza — a mais alta, a mais humana, a que sustenta as vidas —, e não à primeira. Ver o real, no seu grau supremo, é reconhecer Deus com essa mesma convergência de indícios que nos faz reconhecer o amor de alguém: certeza sem prova de compasso, e por isso mais firme, não menos.
O que fazer
- Não exija de todas as certezas o rigor da matemática. As verdades que sustentam a vida — sobre pessoas, sobre Deus, sobre o sentido — conhecem-se por convergência de indícios, e são tão certas quanto qualquer teorema.
- Cuide do seu senso ilativo como se cuida do caráter, porque é a mesma coisa: quem busca a verdade com honestidade julga melhor; quem busca a própria conveniência julga torto, por mais lógica que saiba.
- Diante de uma grande decisão, não espere uma prova única e definitiva que talvez nunca venha. Aprenda a ler o cabo inteiro dos indícios — e depois decida com a alma toda.
Para aprofundar
- São John Henry Newman, Gramática do Assentimento — as probabilidades convergentes, o senso ilativo e o assentimento real
- São John Henry Newman, Apologia Pro Vita Sua — a busca honesta da verdade que forma, aos poucos, uma certeza que sustenta a vida